Pelo direito de comer (e viver) em paz


Em que momento paramos de comer por prazer e passamos a dissecar tudo o que entra (ou não) em nossos pratos? O que aconteceu para que nos tornássemos tão obcecados com gorduras, carboidratos, fibras e sódio? Por que, de repente, virou essencial ler os rótulos dos alimentos? E o que motivou essa categorização de alimentos em bons ou maus?

Para mim, são todas perguntas sem respostas. Mas, ainda que não conheça os porquês, posso sim dizer que todas essas questões se encaixam, infelizmente, nessa tendência (atual) grotesca de controlar o que comem as pessoas ou, pior, nessa mania de fazê-las sentir-se mal por não serem magras.

Pessoalmente, sempre lutei para ter um corpo bonito. Não tem sido uma luta cega, afinal, comer coisas que me dão prazer ainda é muito mais importante do que ser magra. Ainda assim, em vários momentos, principalmente quando é hora de colocar o biquíni, sinto-me mal por não ter malhado mais, por não ter feito aquela dieta da moda ou por ter deixado novas celulites se instalarem (definitivamente) em minhas pernas.

Mas estou farta disso. Estou farta de achar que deveria ter o corpo das meninas que saem nas capas das revistas. Até porque, mesmo as mais lindas, são vítimas do photoshop! Se elas, tão magras e perfeitas, precisam de retoque, o que dizer de uma pobre mortal como eu?

Com certeza, foi por isso que me identifiquei com a Alana, do Eating from the Ground Up. Um de seus textos recentes mostrou-me que essa revolta não é só minha, mas também evidenciou que tenho muito trabalho pela frente. Alana virou um modelo a seguir. Ela não tece comentários desabonadores sobre seu corpo, não faz dieta, nem encolhe a barriga.

O texto de Alana foi tão inspirador que merece ser replicado. Quero que vocês, mulheres lindas e cheias de qualidades, se preocupem menos com seus corpos e mais com seus corações. Que possam se amar por quem são e não pelos seus físicos. Que possam amar suas rugas, provas vivas de que viveram intensamente. Que possam curtir suas dobrinhas, resultado concreto de momentos deliciosos, pratos únicos e viagens inesquecíveis.

Boa leitura! E o meu muito obrigada à Alana.

Os dias de salada ainda estão por vir
(Por Alana, do blog Eating from the Ground Up)

Caro você que decide o que vai sair nas capas de revista que ficam expostas na fila do caixa do supermercado, já chega!

Estou cansada de olhar para suas manchetes ofensivas e mulheres photoshopadas que, provavelmente, nem se reconhecem ao ver suas fotos. Estou cansada de tanta besteira sobre perda de peso e dietas da moda para ficar com o corpo em dia para o verão. Estou cansada de ouvir você falar sobre “abdomens mais sarados" e sobre como “perder sete quilos em três passos simples". Estou cansada de ver você associar comida e corpo na mesma frase em todas as capas de revista. Estou cansada de todas as asneiras ditas em relação aos corpos das mulheres grávidas e estou ainda mais cansada dos elogios às celebridades que “perderam o peso da gravidez”, como se elas não tivessem um personal trainer à disposição, um chef para fazer sucos para elas durante todo o dia e uma babá para cuidar dos bebês enquanto elas fazem dieta e se exercitam o dia todo, afinal suas carreiras dependem disso. Eu sei que você tem anunciantes para agradar, mas eu também sei que há uma alma e uma consciência aí dentro, em algum lugar. E chegou a hora de pôr um fim nisso.

Este não é um pedido egoísta. Tenho duas filhas que, de forma otimista, coloquei neste mundo oito e dez anos atrás. Venho fazendo meu melhor para manter a minha cabeça fora d’água. Como muitas mulheres que eu conheço, meu corpo tem uma aparência diferente da que tinha antes de me tornar mãe. Como a maioria das mulheres, fui criada por outras mulheres que também faziam seu melhor, apesar das capas de revista nas filas dos caixas dos supermercados. Eu me viro bem. Não sou uma dessas mulheres que permanece horas em frente ao espelho (a não ser, é claro, que esteja experimentando um passo de dança novo). Eu não encolho minha barriga. Eu nunca faço comentários depreciativos acerca do meu corpo. Eu uso biquíni sem medo ou vergonha, mesmo que eu esteja mais gordinha ou tenha descuidado um pouco da depilação no inverno. Eu nunca associo o que como com o meu físico – somente com a forma que a comida me faz sentir. Eu não faço dieta. Eu entendo que sou o modelo mais próximo das minhas filhas e levo isso muito a sério. Mas eu não posso fazer isso sozinha.

Este pedido não é só por mim. Nem mesmo por minhas meninas. Vai muito além disso.

Tenho certeza que, por trabalhar nos meios de comunicação, você está ciente de alguns dos desafios que enfrentamos hoje em dia em nosso país e neste planeta. Eu sei que sempre há desafios e que nós sempre os venceremos. Eu também sei que aquilo que você e eu encaramos como desafio pode ser diferente conforme nossas inclinações políticas ou crenças religiosas. Mas acho que concordamos que a lista de coisas que temos que enfrentar é longa e que não vai desaparecer.

E o que isso tem a ver com as manchetes e capas de revistas no supermercado do meu bairro? Muito. Porque, nas próximas décadas, nós vamos precisar dos corações e cérebros de cada pessoa para desvendar como enfrentar essa lista de coisas por fazer de forma a realmente ajudar o planeta e as pessoas que vivem nele. Vamos precisar das minhas meninas, de todos os amigos delas e daqueles amigos que ainda não conhecemos. Vamos precisar das suas meninas também e dos seus meninos, se for esse o seu caso. Eu acho que cada um deles sofre por causa disso de diferentes maneiras, mas estou supondo coisas demais. E tenho certeza de que você vai concordar que, se podemos fazer qualquer coisa para criar uma geração de pessoas que não se distraia além do normal com seus defeitos cada vez que vê seu reflexo, temos a obrigação de fazê-lo. Imagina só o que eles poderiam fazer com toda aquela energia inevitavelmente DESPERDIÇADA para fazer com que se pareçam com suas idiotas capas de revista. Vamos precisar de toda a capacidade intelectual deles nos próximos anos. Vamos precisar da confiança, do amor e da paixão que têm tudo para surgir se apenas eles se livrarem de todas essas distrações. Imagine só o que eles podem fazer se pararmos de distraí-los.

Minha lista de pedidos é curta, porque sei que temos que começar com alguma coisa. Sei que para você esta questão é muito maior do que isso e que você também é mais uma vítima de algo maior. Sei que estou simplificando demais tanto o problema quanto a solução para que caiba em uma página. Sou uma escritora e esta página é a ferramenta que tenho. Cada um de nós tem suas ferramentas – usarei a minha e você, a sua. Eu também entendo que você não pode simplesmente começar a colocar imagens de pessoas normais fazendo coisas legais com suas vidas nas capas das revistas (ainda que não seja uma má ideia, verdade?). Mas eu tenho que ir ao supermercado e, muitas vezes, levo minhas filhas comigo. Então, vamos começar com isto:

1. Maneire no photoshop. Celebridades e modelos tendem a ser mais magras e radiantes e ter a pele mais aveludada do que a maioria de nós, de qualquer maneira, então que tal deixar as coisas assim? Não há necessidade de deixá-las mais magras, mais radiantes e mais aveludadas.

2. Chega de manchetes apenas sobre o corpo. Chega de “5 passos para uma barriga lisinha!” ou promessas de perda de peso rápida. Todas sabemos que é isso não passa de um truque sorrateiro para fazer com que as pessoas folheiem a revista. E a reportagem não passa de uma série de conselhos bobos. Não consigo acreditar que não haja uso melhor para esse espaço.

3. Pare de falar de comida como se fosse algo a temer. As sobremesas não são apenas uma forma de gratificação. Elas podem ser coisas deliciosas que comemos após o jantar. A comida não é uma forma de trapaça ou traição. Pare de fingir que há listas mágicas de comidas que farão com que as pessoas se sintam mais bonitas. Pare de falar mal de certas categorias de comida. Algumas pessoas se sentem melhor quando não comem certas coisas, mas isso é uma coisa normal. E tenho certeza de que quanto mais brigam com as pessoas sobre o que elas deveriam ou não comer, maior é o esforço para distraí-las dos seus desejos, quando, se deixadas em paz, elas naturalmente irão, é o que acho, escolher os alimentos corretos.

E enquanto estamos aqui falando de comida, podemos acabar com essa ideia de que salada e legumes são virtuosos ou que comê-los representa uma forma de sacrifício ou punição por ter comido outras coisas? Mais do que isso, podemos simplesmente nos livrar da ideia de comida como punição? Estou começando a achar que, ao categorizar os alimentos como bons ou maus, as outras classificações se perdem – quer dizer, as classificações mais importantes. Que tal delicioso? Gratificante? Plantado e colhido com as próprias mãos?

Isso é loucura. É hora de parar. Eu realmente preciso de sua ajuda com isso. Estou fazendo meu melhor, mas não posso fazê-lo sem você.

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